O encontro de duas histórias aos 18 anos

Em 1991, quando ingressei na Fundacred, eu tinha 18 anos. Coincidência ou não, a Fundação também vivia seus 18 anos.
Ao olhar para essa coincidência, gosto de pensar que ela simboliza muito do que vivemos juntas ao longo dessas mais de três décadas. Éramos duas jovens iniciando uma nova fase de suas histórias, cheias de potencial, sonhos e vontade de construir algo relevante.
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Uma jornada de aprendizado
Comecei como auxiliar administrativa, realizando o atendimento presencial aos estudantes beneficiados pelo crédito educacional. Os contratos eram físicos e, a cada semestre, os estudantes retornavam para renová-los. Eu acompanhava suas jornadas, seus desafios e suas conquistas. Mais do que atendê-los, criava vínculos e via de perto o impacto da educação na vida das pessoas.
Foi também nesse período que a Fundacred despertou em mim uma vocação. Em uma sala simples, onde ficava o café, nasceram conversas que mudariam minha vida. A contadora da Fundação, que amava o que fazia e que enxergava algo em mim que eu ainda não via, respondia às minhas perguntas e alimentava minha curiosidade sobre a profissão. Foi ali que surgiu a decisão de prestar vestibular para Ciências Contábeis.
A educação formal transforma trajetórias, inclusive a minha. E chegou o momento de vivenciar uma experiência semelhante à daqueles estudantes que atendia diariamente. Afinal, eu seria a mais nova beneficiária do crédito educacional.
A primeira a ingressar na universidade
Filha de uma família simples, formada em escola pública, acessar o ensino superior em uma instituição reconhecida teve um significado muito especial. Fui a primeira da minha família a ingressar na universidade. Lembro da emoção de ver meu nome no listão da PUCRS, publicado no jornal. Minha mãe, viúva, e toda a minha família celebraram aquela conquista como se fosse de todos nós e, de certa forma, era mesmo.
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Pouco tempo depois, ainda durante a graduação, surgiu uma oportunidade na área contábil da Fundacred. Candidatei-me imediatamente. Junto com a contadora que assumia naquele mesmo período, participei da reformulação de todo o processo de contabilização dos créditos educacionais e este foi um dos momentos mais ricos da minha formação profissional.
Enquanto minha mãe costurava lindos vestidos de festa (sua fonte de renda de sempre), depois de um dia de trabalho e aula na faculdade, eu chegava e abria os livros. Muitas vezes, seguíamos juntas noite adentro, aquecidas por uma xícara de chá e pela certeza de que o esforço faria valer a pena.
Ao mesmo tempo em que construímos uma contabilidade mais estruturada na Fundação, eu construía meus próprios sonhos. Foi por meio do meu trabalho que conquistei meu primeiro apartamento, iniciei minha vida em família e celebrei minha formatura. Vieram novas responsabilidades, a liderança da área contábil e, logo depois, um MBA em Gestão Empresarial pela FGV.

A Fundacred iniciou um importante processo de transformação: reinvenção institucional, expansão e construção de novas capacidades. Nivio, ao assumir a diretoria executiva, trouxe consigo uma cultura de confiança nas pessoas — e fui uma das que sentiram isso de perto. Tive o privilégio de participar ativamente dessa jornada. Construímos a cadeia de valor da Fundação, fortalecemos processos, pessoas e produtos, ampliando nossa capacidade de gerar impacto social.
Foi nesse contexto que assumi a primeira Gerência de Controladoria e Finanças da instituição. Novos aprendizados vieram junto, e investi em formação novamente, concluindo um MBA em Controladoria e Finanças e seguindo em formação contínua — pela Fundação Dom Cabral, Cambridge Business School e outros programas que foram ampliando minha visão de mundo e de gestão.
Com o passar dos anos, minhas apresentações ao Conselho deixaram de tratar apenas de números. Passei a compreender a organização como um todo e entendi que sustentabilidade financeira não é um fim em si mesma, ela é o que permite que uma instituição como a Fundacred continue transformando vidas por meio do acesso à educação.
Ao longo desses 35 anos, vi a Fundacred ampliar seu alcance de forma extraordinária. Quando iniciei minha trajetória, éramos uma instituição com pouco mais de 20 conveniadas. Hoje, fazemos parte da jornada de mais de 100 mil estudantes e atuamos ao lado de mais de 250 instituições de ensino em todo o Brasil.
Olhar para essa evolução me emociona. Porque não se trata apenas de crescimento institucional: são mais de 100 mil histórias impactadas, milhares de famílias transformadas pela educação e uma rede de instituições que acreditam no poder do conhecimento para mudar vidas. A Fundacred se tornou uma importante articuladora do ecossistema educacional, conectando estudantes, instituições, mantenedoras e oportunidades.

Em 2022 recebi o maior desafio da minha trajetória profissional: integrar o board executivo da Fundação, tornando-me a primeira mulher a ocupar esse espaço. Aceitei esse convite com humildade, consciência do que representava e profundo senso de responsabilidade. Mais do que um reconhecimento individual, enxerguei aquele momento como uma demonstração da evolução da própria Fundacred, uma instituição capaz de valorizar diferentes trajetórias, perspectivas e formas de liderança.
Penso nas mulheres que virão depois de mim e espero que a minha presença neste espaço diga, sem precisar de palavras, que elas também podem chegar até aqui. Porque nenhuma trajetória é construída sozinha, e essa é uma verdade que aprendi ao lado de profissionais extraordinários que ajudaram a moldar não apenas a instituição, mas minha forma de liderar. Ao lado de Nivio, aprendi que crescimento exige coragem, visão e confiança nas pessoas. Com Alessandro, aprendi a importância da excelência na execução, e a sua capacidade de transformar estratégia em resultado concreto é algo que sempre admirei profundamente.

Hoje, como vice-presidente de Finanças, olho para trás e percebo que minha história e a da Fundacred estão profundamente conectadas.
O maior impacto que uma instituição pode ter na vida de uma pessoa é capacitá-la a descobrir seu propósito e a construir quem ela se torna.
Nós nos conhecemos aos 18 anos.
Neste ano, chegamos juntas aos 54.
Amadurecemos juntas.
Eu adoro a minha história. Mas o que a torna tão especial é saber que ela nunca foi apenas minha. Ela foi construída ao lado de milhares de estudantes que buscaram na educação uma oportunidade de transformação, de colegas que compartilharam desafios e conquistas, de líderes que me inspiraram e de uma instituição que acreditou em mim desde os meus 18 anos.
Algumas trajetórias apenas se cruzam. Outras crescem juntas, transformam-se mutuamente e passam a fazer parte uma da outra.
A minha e a da Fundacred são assim.
Trajetórias que se conectam
Por Patricia Kniest, vice-presidente de Finanças da Fundacred