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Fundacred

O impacto da educação em cada trajetória

Nosso presidente, Nivio Lewis Delgado, compartilha um emocionante relato sobre sua jornada de quase três décadas na Fundacred e faz um convite à reflexão.


Não te acomode nesse trem

Imaginar a própria trajetória como um trem foi o exercício que fiz ao receber o convite para escrever sobre o impacto da Fundacred na minha trajetória de vida. A imagem veio rápido. Trens têm estações, têm passageiros que sobem e descem, têm um destino que só se revela em movimento.

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Em 1997, aos dezesseis anos, cheguei à minha primeira entrevista de emprego. Carteira de trabalho em branco, mas trabalho não me era novidade. Vendi quindins desde criança na praia de Bom Jesus e trabalhei com obra civil. Vendi ao lado do meu pai diversos produtos por um tempo, em Porto Alegre, e fazia um café excelente no escritório que ele dividia com outros vendedores. Cheguei a dar aula de informática na Escola Estadual Piratini, ensinando professoras a usar o mouse com o jogo da tartaruga. Será que alguém lembra disso? Na pasta, certificados de cursos livres de informática e línguas, e um boletim do ensino médio com boas notas. Trazia na bagagem algum capital simbólico, algum capital cultural, algum capital social. Mas o que pesava mesmo era outra coisa: a vontade de trabalhar.

A entrevista quase terminou antes de começar. Recebi uma negativa: eu não poderia iniciar porque ainda não havia concluído o ensino médio. Faltavam três meses. Eu estudava pela manhã e não daria tempo de transferir para a noite. Naquele momento, havia dois caminhos no prédio: descer do quinto andar para o térreo e ir embora, ou subir para o sexto, onde ficava a presidência. Eu era muito jovem, mas alguma vivência anterior, ou alguma iluminação do universo, me fez apertar o botão de subir.

No sexto andar, quem me recebeu foi a secretária do presidente, Gizeli Kniest Machado. Ela abriu a porta para que eu pudesse defender minha tese com meus certificados. Anos depois, Gizeli foi minha secretária, depois se tornou líder de pessoas, e com ela fundei a área de Desenvolvimento Humano e Organizacional da Fundacred. Hoje, mesmo aposentada, é nossa Conselheira Curadora. Nada mais justo: quem soube abrir portas segue com o olhar voltado para tudo aquilo que fazemos com nossas pessoas.

Subi no trem pela porta que alguém abriu

A primeira página da carteira de trabalho assinada me deixou genuinamente feliz. Vale-refeição, vale-transporte: coisas que nenhuma das minhas atividades até ali havia oferecido. Um lugar confortável, longe da chuva e do frio, café quente e colegas com quem trocava saberes todos os dias. Para quem vendeu quindim na praia no olho do Sol quando criança, trabalhou com obra civil e vendeu de porta em porta na adolescência, isso não era pouco.

Comecei no processo inicial de digitalização dos documentos da Fundacred. De lá, fui convidado para a área de recuperação ativa de valores. Eu fazia ligações para todo o Brasil e conversava com pessoas muito diferentes, com formas de se expressar e de compreender distintas. Aprendi a me comunicar melhor. Aprendi a resolver problemas. Me tornei um exímio localizador de pessoas em um tempo em que a ferramenta de busca era uma sala com as listas telefônicas do país inteiro, impressas, para consulta.

Tudo isso entre pessoas que iam me dando espaço, criando ambiência para desenvolver soluções para problemas antigos e novos. E que me incentivavam a prestar o vestibular para Direito. A essa altura, cercado de colegas que cursavam ou já haviam se formado em Direito, Tatiana Goulart, Gleiber Piegas, Michael Ribeiro, Carlos Becker, ali mesmo na Fundacred, eu já sabia o que queria. Queria ser advogado.

WhatsApp Image 2026-05-05 at 09.25.34Não fui o primeiro da minha família a chegar perto do ensino superior. Minhas irmãs já estudavam. Minha mãe começou a faculdade logo depois que eu nasci e se formou com um filho pequeno em casa. Meu pai abandonou o curso de Direito bem no fim, para empreender. Carregou esse arrependimento ao longo da vida e o transformou em incentivo: foi, junto com minha mãe, quem mais me empurrou para estudar. A oportunidade real de ingressar no ensino superior, porém, veio pela Fundacred, e veio em dose dupla: a instituição onde eu trabalhava era a mesma que viabilizaria o meu futuro, com um bom emprego e com o crédito educacional corporativo que ela mesma geria, e gere até hoje, o CredCORP.

A viagem não foi em linha reta. E nem deveria. Eu não teria aprendido e apreciado tanto os aprendizados. Houve um período em que precisei trancar a faculdade e me mudar de cidade. Quando voltei, meses depois, encontrei a Fundacred de braços abertos. O convite não era apenas para retomar o trabalho e estruturar uma nova área de recuperação ativa da entidade. Seis meses depois veio o desafio: voltar para a faculdade e me formar.

Depois, o incentivo para prestar a prova da OAB. Passei. A diretoria da época entendeu que eu deveria coordenar a área jurídica, porque eu havia estruturado a recuperação ativa e as negociações do departamento, transformando uma área de apoio em uma área potente para os resultados da entidade. Vieram as pós-graduações, os MBAs, os programas executivos em finanças e governança. Sempre com o mesmo recado nas entrelinhas: Guri, não te acomoda nesse trem.

Em quase trinta anos de viagem, muitas pessoas subiram nos vagões

Foram pessoas que me ensinaram coisas que nenhum curso ensina. Pude trocar saberes e, com alguma sorte talvez, ensinar algo valioso para algumas pessoas. Pessoas me legitimaram e me incentivaram; pude legitimar e incentivar pessoas. Na minha reflexão para escrever este artigo, foi aqui que encontrei sentido e convergência com o tema dos 54 anos da Fundacred: trajetórias que se conectam. É o engate entre os vagões, as pessoas que ali se relacionam de alguma forma, que fazem do trem um trem. Sem isso, são apenas peças paradas no mesmo trilho. Foram essas conexões que mudaram a minha forma de entender o caminho.

Há quem veja uma trajetória, um itinerário, como trilho pronto, destino traçado desde a partida. Prefiro ver de outro jeito; o trilho existe, mas as estações e as pessoas, os contextos e as relações transformam a viagem. Cada pessoa que sobe muda o que o trem é capaz de carregar e onde pode chegar.

Tem algo que essa história revela e que não posso deixar de enaltecer. A Fundacred promove acesso à educação. Defende, fomenta, investe nas instituições de educação formal. Mas há uma parte da nossa Lei de Diretrizes e Bases que costuma passar despercebida; a educação abrange também os processos formativos que se desenvolvem no trabalho. A minha trajetória é a prova de que a Fundacred realiza as duas coisas ao mesmo tempo. Viabilizou com as IEs a minha formação e foi, ela mesma, escola, com cuidado, com atenção e pelas mãos de pessoas que acreditam na educação todos os dias.

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Hoje, da presidência, olho para cada estudante que viabiliza seus estudos conosco e enxergo uma pasta de certificados de 1997. Alguém com capitais ainda em formação e uma vontade enorme de construir a autoria da própria vida. E a pergunta que me acompanha segue viva: esse estudante vai conseguir embarcar e seguir viagem? Trabalho todos os dias para que a resposta seja sim. Comigo deu certo.

Aos 54 anos da Fundação, deixo esse convite: olhe para o seu vagão, observe sua trajetória. Quem subiu com você, antes de você, depois de você. Quem já desembarcou, quem lhe deu espaço, quem já lhe pegou pela mão na hora de embarcar. Todos merecem ser lembrados. E quem ainda vai embarcar merece encontrar a porta aberta.

Se algum dia a porta parecer fechada, lembre-se: sempre existe um andar acima. Nós não estamos sozinhos, sempre há alguém disposto a abrir a porta, basta se permitir procurar.


Não te acomode nesse trem
Por Nivio Lewis Delgado, presidente da Fundacred

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