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Fundacred

A volta ao ethos: crédito educacional e seu impacto social

Confira o artigo do nosso presidente sobre a missão técnica à Colômbia. Entenda o crédito educacional e seu impacto social na transformação da educação.


De volta ao ethos

Os gregos chamavam de ethos, antes de tudo, a morada habitual: o lugar de onde se vem e que molda o caráter. Em julho, voltei à origem intelectual da Fundacred. Há 54 anos, os idealizadores da Fundação de Crédito Educacional atravessaram o continente para conhecer a ideia do doutor Gabriel Betancur Mejía, criador, em 1950, do ICETEX, a primeira instituição de crédito educativo do mundo. A lógica era de uma simplicidade desconcertante: eu te empresto, você se forma, trabalha e devolve, e outro estuda. Daquela viagem nasceu a Fundacred, em 1972. Neste mês, refiz o caminho com nossa diretoria, em missão técnica construída com a APICE, a associação pan-americana de crédito educativo.

Não era a minha primeira vez na Colômbia. A parceria com a APICE é longa e próxima: a Fundacred integra a sua junta diretiva, na qual tenho a honra de servir como primeiro vocalista, e conheço o doutor Jorge Téllez há quase 30 anos. É sempre a mesma pessoa: gentil, afetuosa e de enorme competência, fazendo jus ao legado do doutor Gabriel. Ninguém representa como ele a força de quem inventou o crédito educativo, e me orgulha pertencer ao seu círculo profissional e de amizade.

A imersão desses dias, porém, transformou conhecidos de agenda em algo mais denso e de valor prático. Vi de perto a criatividade e a inteligência de Víctor Manuel, vice-reitor administrativo e financeiro da Javeriana, que respondeu à crise do financiamento estudantil inventando soluções onde muitos só enxergariam problemas. Saí impressionado com José Maurício Cano, da Fundación Grupo Social , e com a serenidade de quem administra um patrimônio centenário a serviço de uma missão. Eram rostos que eu já conhecia dos encontros anuais da APICE, mas que a convivência em profundidade revelou por inteiro. Voltei com a confirmação de que existe algo de especial na Colômbia e nos colombianos.

A origem histórica e a lição colombiana sobre o que é crédito educacional e seu impacto social

Esse algo tem nome: comunitarismo. A Colômbia que visitei não espera o Estado nem terceiriza ao mercado aquilo que a comunidade pode resolver junta. Um bairro inteiro construído em torno de uma obra social. Universidades que se unem para garantir mutuamente o crédito de seus estudantes. Famílias empresariais que destinam parte fixa de seus resultados a bolsas com nome e sobrenome. Uma poupança popular de mais de um século que virou banco sem deixar de servir a quem a criou. Lá, o comunitário não é nostalgia: é tecnologia social em pleno funcionamento, e talvez seja essa a lição mais urgente para o Brasil.

A missão também confirmou o que estamos desenvolvendo como arquitetura, método e protocolo: o FCTX - Fundacred Contextos é plenamente possível e necessário, e não só no Brasil. Em abril, na missão à China, eu havia visto com meus próprios olhos a confirmação tecnológica; na Colômbia, veio a confirmação humana e institucional. E vi que acesso sem ciclo completo é promessa não cumprida. Em todas as mesas, a mesma gramática: não basta o estudante entrar. É preciso que permaneça, se gradue e chegue ao trabalho, porque é o egresso que financia o próximo. E não só pelo recurso que devolve, o capital econômico: também pelo exemplo que se torna, capital simbólico; pela rede que abre aos seus, capital social; e por aquilo que aplica e compartilha do capital cultural que acessou e acumulou. Quem se forma financia o próximo com dinheiro e com possibilidade.

A permanência estudantil na prática

Nós conhecemos o custo de ignorar essa gramática: no ciclo de 2020 a 2024, a desistência acumulada no ensino superior brasileiro chegou a cerca de 62%, segundo o Mapa do Ensino Superior do Semesp. A pergunta que me orienta não é quantos entraram. É: a pessoa que entrou saiu diferente? Com mais repertório para nomear o mundo, mais rede para construir os próprios caminhos, mais pertencimento, e, como se defende no ICETEX desde a origem, com liberdade real para escolher a sua melhor opção de vida?

Consolidando o crédito educacional e seu impacto social

E vi que o financiamento educacional é, na essência, um pacto entre gerações. Ninguém me mostrou isso com mais força que o padre Camilo Bernal, engenheiro de inteligência aguda e estudioso de inteligência artificial, que dá continuidade criativa e executiva à obra do padre Rafael García-Herreros, o homem que fez de um minuto diário de palavra uma plataforma de transformação social. Dessa obra nasceu uma cooperativa a partir de uma carteira de créditos vencidos, recebida em doação e transformada em financiamento solidário sob o lema "se você paga, eu posso estudar". O alcance dessa missão eu ouvi num depoimento que guardo: o professor Carlos, que nos acompanhou a semana inteira, contou que viu em sua própria casa, com sua mãe, a obra do padre García-Herreros em ação. Quando uma causa atravessa gerações e chega à sala das famílias, deixou de ser projeto. Virou ethos.

Entendi, por fim, que ethos não é discurso, é hábito: o caráter de uma instituição se revela no que ela repete por décadas, não no que declara em ocasiões especiais. Nossa relação com a APICE deu, a partir deste ano, um passo grande de profundidade e extensão. Em breve teremos novidades, com ainda mais impacto para brasileiros, latino-americanos e, quiçá, africanos.

Na despedida, o padre Camilo me encorajou como se falasse pelo próprio padre García-Herreros: o ânimo, a graça de Deus e o trabalho duro, disse ele, vão nos fazer, juntos, chegar mais longe. Fico com a primeira dessas palavras como síntese da semana: Ânimo, a força que move de dentro. É com ela que sigo: fazer mais, e melhor, nos próximos 50 anos.

Ânimo!


Nivio Lewis Delgado
Presidente da Fundacred.



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